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O Filho de Eneias



Sexta-feira, 27.09.13

O motim da Companhia

23 de Fevereiro de 1757. Há datas que têm o singelo condão de marcar toda uma história, e esta, pelo simbolismo que carrega, ficou gravada a sangue e a ferros na vetusta história da "Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta" cidade do Porto. Nesta data memorável, o poder central, na altura comandado pelo impiedoso Sebastião José de Carvalho e Melo, foi corajosamente afrontado pelas gentes nortenhas, numa refrega que, não obstante os seus escassos resultados, marcou mais uma etapa na dolorosa afirmação do Porto como a cidade da Liberdade. Esse motim resultou, em larga medida, da oposição dos comerciantes ingleses e dos seus representantes portugueses à constituição da Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro. Este mastodonte estatal tinha como objectivo primacial combater a crise de sobreprodução que, nos anos anteriores, tinha atingido o vinho do Porto. A sua constituição foi, por conseguinte, muito contestada desde o início, devido, em parte, aos prejuízos que, previsivelmente, viria a acarretar para os interesses ingleses, devidamente secundados pelos taberneiros e pela arraia-miúda do burgo. O desenrolar desta contestação teria o seu epílogo nos meses de Fevereiro e Março de 1757, quando rebentaram vários motins populares contra a Companhia. No sobredito dia 23 de Fevereiro, o motim teria o seu apogeu, quando os amotinados, concentrados no antigo largo do Olival (actual largo da Cordoaria), começaram a entoar "Viva o Povo" e "Morra a Companhia".  Como é de adivinhar, estes cânticos não foram, propriamente, muito benquistos pelas autoridades citadinas. Entretanto, o povo foi-se aglomerando junto à casa do chanceler ou regedor das justiças, exigindo a imediata extinção da Companhia e o fim do monopólio da comercialização dos vinhos. Passado pouco tempo, perante a inoperância do referido regedor, a turba foi-se dirigindo, com muita exaltação, para a frontaria da casa de Luís Beleza de Andrade, o então provedor da Companhia. Aqui, os ânimos exaltaram-se de vez, dando origem a uma verdadeira batalha campal, que terminaria com a vandalização da habitação e dos escritórios da Companhia. A resposta pombalina não se fez esperar. A 28 de Fevereiro, o Rei D. José nomearia o desembargador João Pacheco Pereira (há nomes que falam por si) para que inquirisse e investigasse os acontecimentos de dia 23. Estes levantamentos resultaram no indiciamento de 462 suspeitos, 26 dos quais condenados a pena de morte (com algumas mulheres no rol), com a subsequente ocupação militar da cidade por vários regimentos de infantaria. Seria, também, na sequência destes acontecimentos que o inolvidável João de Almada e Melo, um dos próceres do Porto moderno, chegaria à cidade, nomeado como Governador do Partido das Armas do Porto. Esta brilhante estória de resistência fadada ao fracasso terminaria no dia 14 de Outubro com o esquartajeamento dos 26 condenados à pena capital. Foi assim que findou um motim que, em boa verdade, estava, desde o princípio, condenado ao mais estrepitoso fracasso. Os ventos políticos na capital tinham mudado, pelo que o Porto burguês e empreendedor, fruto do árduo trabalho de uma sólida comunidade, estava, ainda que com algumas nuances, destinado a sofrer na pele os arroubos centralistas do Marquês de Pombal e respectiva comandita. A história do Porto empreendedor fez-se, pois, destes momentos de perda e dor, em que a liberdade foi gritada, com muito sangue, suor e lágrimas. Uma história em que, diga-se a abono da verdade, os escanções do liberticídio não têm manifestamente lugar.

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por João Pinto Bastos às 14:03

Segunda-feira, 23.09.13

Um breve comentário à vitória da Angie

A nota dominante da vitória de Merkel (ou Angie, para os recém-convertidos à fé merkeliana) é, sem dúvida alguma, o facto de as classes médias teutónicas, que vivem do trabalho e do livre empreendimento, terem sancionado o trabalho desenvolvido, nos últimos anos, pela flamante chanceler. Contrariando os ventos predominantes noutras paragens europeias, os alemães premiaram a evolução na continuidade. Nada que, no fundo, surpreenda. O povo alemão sempre prezou o rigor, a competência e o trabalho, e Merkel, cumprindo à risca o que prometeu ao seu eleitorado, conseguiu, numa campanha eleitoral curta e objectiva, reunir esses sentimentos fundos a um programa ideologicamente flexível. Ganhou a Alemanha e, diga-se a abono da verdade, ganharam, também, os restantes povos europeus. Quanto a Portugal, os resultados eleitorais devem ser lidos do seguinte modo: o programa de resgate é para continuar e, note-se, para aprofundar. Para quem ansiava por uma espécie de "degelo" nas relações Norte-Sul, a vitória de Merkel representou um profundo baque, pondo entre parênteses os anseios controladeiros da malta que vive do saque do contribuinte. Nessa medida, a banda esquerda do regime sofreu uma derrota insofismável. No tocante ao Governo, a interpretação anterior deve ser matizada. O executivo, atento o pensamento de Merkel e quejandos, não terá, doravante, outro remédio a não ser reforçar amplamente o seu empenho na correcção da trajectória de decadência trilhada pelos executivos anteriores. O compulsivo lema do "viver acima das suas possibilidades" findou de vez, pelo que a política portuguesa, no que tem de mais negativamente arraigado, terá, forçosamente, de mudar de vida. Porque, ao inverso do que agoiravam certas aves raras, os taumaturgos políticos não existem, ou, pelo menos, não existem de fora para dentro, impondo soluções miraculosas ao povo ignaro. Resta-nos, pois, trabalhar, esperando que, no futuro, venham melhores dias.

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por João Pinto Bastos às 13:50

Sábado, 21.09.13

O rapto de Helena

Luca Giordano, O rapto de Helena, 1680-1683

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por João Pinto Bastos às 18:11

Sábado, 21.09.13

Estórias czarianas

Uma das gaffes mais espirituosas de Pedro, o Grande, pela pena do duque de Saint-Simon (Mémoires du duc de Saint-Simon):

"O czar não estava irritado porque a Inglaterra não tinha mostrado muita pressa em mandar-lhe uma embaixada. Quando, finalmente, esta chegou, primeiro não lhe concedeu audiência, depois marcou-a, mas a bordo de um veleiro holandês que ele havia de visitar. Os embaixadores acharam extravagante a ideia, mas acomodaram-se a ela. Quando chegaram a bordo, foi-lhes dito que o czar estava na gávea e que os receberia lá em cima. Os embaixadores, que não se sentiam com alma de marinheiros, recusaram-se a enfrentar as longas escadinhas de corda; mas o czar insistia, e os embaixadores ficavam cada vez mais embaraçados com aquela bizarria tão discutível; até que, tornando-se o tom do czar cada vez mais brusco, não tiveram outro remédio senão subir. Na gávea - assim, sem mais nada e fustigados pelo vento - foram recebidos por um Pedro solene e majestoso, como se estivesse sobre um trono. Ouviu a sua arenga e respondeu convenientemente; mas, por fim, troçou do medo que via estampado naquelas faces vincadas, e deu a entender, rindo-se, que lhes tinha imposto as vertigens, como castigo por se terem apresentado tão tarde."

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por João Pinto Bastos às 14:54

Sábado, 21.09.13

Stenka Razin

Nunca fui, malgrado os meus ingentes esforços, um pianista talentoso. Falta de jeito, dirão alguns, e, com efeito, a minha destreza no tilintar das teclas nunca foi muito apurada. Mas, no fundo, o meu insucesso derivou, fundamentalmente, da minha falta de vocação para a coisa. O certo é que durante os anos em que pratiquei a minha inexistente habilidade sobre o piano, consegui, graças a Deus, afinar a minha sensibilidade musical. Data dessa altura o boníssimo contacto que tive com o grande compositor russo, Alexander Glazunov (1865-1936), infelizmente desconhecido do grande público. Para um neófito na arte musical, um contacto deste calibre teria, forçosamente, de deixar a sua marca. Recordo-me, em particular, do poema sinfónico, Stenka Razin, dedicado por Glazunov a Borodin. Ainda hoje, passados alguns anos, oiço com paixão esta brilhante composição. Num estilo muito próprio, um tanto ou quanto reminiscente do melhor TchaikovsKy, Glazunov reconstrói a epopeia cossaca de Razin, fixando-a, sobretudo, no momento em que o herói cossaco sacrifica a sua amada princesa persa, afogando-a, sendo, posteriormente, capturado pelos soldados czaristas. A mestria com que Glazunov aborda esta sequência é particularmente tocante. Sente-se uma leveza quase transcendente no modo como o ritmo da composição flui. Uma magnificência sumamente romântica, como foi, de resto, apanágio de Glazunov em quase todas as obras que compôs. A história de Stenka Razin tem, aliás, uma imponente aura romântica, que não se circunscreve, apenas, ao sacrifício isaaquiano retratado no tema acima postado. É, ademais, importante notar que as excentricidades de Razin não se limitaram à mancebia com a desafortunada princesa persa. Para termos uma simples ideia da qualidade do personagem em análise, basta saber que no auge de uma das revoltas que diligentemente chefiou, Razin, vindo de Astracã, atreveu-se a subir o Volga com duas luxuosas embarcações, afirmando ter no seu interior o Patriarca Nikon e o czarevitch. Uma mise-en-scène perfeita. O fim de Razin não foi, contudo, nada abonatório, se pensarmos, por exemplo, nos extravagantes talentos que caracterizaram, desde sempre, o poderoso chefão. No dia 4 de Junho de 1670, o memorável patrão dos cossacos seria brutalmente executado, com direito a uma meticulosa amputação de pernas, braços e cabeça. Um castigo à russa. Alguns anos mais tarde, Mazeppa, cossaco imortalizado pela pena de Byron, escaparia, por pouco, a um destino similar. A Grande Rússia é prenhe em estórias deste jaez. Sem ir muito longe, se olharmos para a figura de Pedro, O Grande, verificaremos, com uma simpleza desarmante, que a excentricidade polida faz inegavelmente parte do código genético russo. Glazunov crismou, como poucos, essa feição tipicamente russa, retratanto magistralmente, na sua toada romântica, os caracteres mais salientes de um povo fechado mas inclitamente caridoso. Foi, também, com ele que aprendi que a música é, em muitas circunstâncias, uma das artes mais sublimadoras da grandeza e da tragicidade do homem. Para um desconhecido do grande público, hão-de convir que o resultado não é de todo esquecível.

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por João Pinto Bastos às 01:02

Sexta-feira, 20.09.13

Os prolegómenos

Confesso que não tenho grande jeito para escrever longos prolegómenos. A minha experiência blogosférica tem-me ensinado que a escrita prolixa, quando desacompanhada dos raios da inteligência, traduz-se quase sempre em baixos índices de compreensão. Não esperem, pois, uma carta de intenções desvelada a granel, pretensiosamente dirigida a um público inexistente. Não esperem, também, proclamações grandiloquentes varejadas de falso ardor. Não dou para esses peditórios. Este blogue obedece a outros princípios, e será, em grande medida, um repositório de memórias, experiências e (des)encantos pessoais. Uma espécie de blogue/diário, em que a palavra e a liberdade serão os acompanhantes de luxo do escriba e do leitor. Espero que gostem.

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por João Pinto Bastos às 14:58


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