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O Filho de Eneias



Terça-feira, 29.10.13

It's all for nothing


High Noon (O comboio apitou três vezes), Gary Cooper, 1952

É difícil encontrar quem exponha e escancare à vista de todos a sua fragilidade. O ser humano, nas suas múltiplas facetas, não gosta, por antonomásia, de fraquejar em redor dos seus semelhantes. A explicação para esta esquizofrenia reside, primacialmente, na deificação que o homem faz de si próprio: um homem que recusa ser fraco e que deseja, simultaneamente, equiparar-se a Deus, mas que falha, bem vistas as coisas, em ambos os prospectos. A fragilidade não é, com certeza, um espantalhozinho que possa ser debelado com um mero sopro. O dia-a-dia de cada um de nós assim o prova. A fragilidade irrompe sempre, desordenada e incontida, nos momentos mais desditosos, trespassando as classes mais ensimesmadas e os feitios mais inexpugnáveis. O que diferencia cada ser humano é a capacidade com que cada um responde perante a adversidade e o sofrimento isolador. Nem todos conseguirão ser, é certo, um Will Kane (Gary Cooper), mas a centelha da superação está sempre presente. Falo de Kane porque, por mais que o tempo passe, e ele passa bem depressa, não consigo vislumbrar um exemplo mais perfeito da dúvida que quase cede ao desespero. Uma fragilidade bem humana, portanto. O sofrimento do xerife que se vê abandonado por todos (excepto, graças a Deus, a graciosa Grace Kelly, que ajuda o pobre homem, num final apoteótico prenhe de dignidade) no combate a um gang de pistoleiros é espectacularmente bem resumido na expressão lapidar do ex-xerife Martin Howe (Lon Chaney Jr.), que, num acesso de sinceridade demissionária, aconselha Kane a não fazer rigorosamente nada, porque, no fundo, não vale a pena. It's all for nothing. Um frase forte mas bem enraizada em todos nós. Howe é, em boa verdade, a voz interior que nos estimula a desistir, uma voz de pena e decepção, sem o filtro da audácia retemperadora. Kane acabaria por não perfilhar o conselho do velho mentor, mas o certo é que este "it's all for nothing" tem uma ressonância demasiado poderosa. Sempre foi assim, e não pode ser de outro modo. O homem capitula, mas levanta, de quando em quando, a cabeça. É tudo uma questão de carácter. Kane tinha-o e superou, com uma coragem imbuída de muitas dúvidas, a sua némesis, levando a sua avante. Outros preferem manter a insígnia, entregando a sua dignidade aos cães lambujeiros. A escolha é nossa, para o bem e para o mal.

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por João Pinto Bastos às 12:43

Domingo, 27.10.13

Máximas da boa governação

Ben Sira, Bíblia:

"O juiz sábio educa o seu povo, e o governo do homem sensato será estável. / Tal o chefe do povo, tais os seus ministros; tal o governador da cidade, tais os seus habitantes. / O rei imprudente será a ruína do seu povo, e a cidade será construída graças à inteligência dos governantes. / O governo do mundo está nas mãos do Senhor. / Ele suscitará, no tempo oportuno, o homem que convém. / O sucesso de um homem está nas mãos do Senhor. / É ele que confere ao legislador a sua glória". 

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por João Pinto Bastos às 15:10

Sábado, 05.10.13

O ocaso da memória colectiva

103 anos de "república" (república entendida como sistema de governo, e não como a administração do bem comum) traduziram-se no ocaso da memória colectiva dos nossos condidadãos. Hoje, dia 5 de Outubro, nós, portugueses, deveríamos estar a celebrar a assinatura do tratado de Zamora, que crismou, como é sabido, a independência do reino de Portugal. Mas, em vez disso, o motivo das nossas celebrações é uma data que. bem vistas as coisas, carreou a destruição inapelável das tradições mais arraigadas da grei portuguesa. O indício mais forte do nosso decaimento vê-se, precisamente, no desprezo que, ironicamente, o grosso do nosso povo vota às datas matriciais da Nação. O 5 de Outubro é, por conseguinte, uma espécie de data mítica, sob a qual, com uma certa dose de prestidigitação, germinou o "Portugal Novo" moderno e progressista. A história, com as suas costumeiras vicissitudes, tem-se encarregado de desmentir o dogmatismo republicano, colocando a nu as falácias de uma mundividência que falseia impudentemente. Portugal decaiu, mas continua, felizmente, de pé, à espera do levantamento das suas gentes, sobretudo, daqueles que não baixam os braços, e que não esquecem, afortunadamente, os seus antepassados. Foi este o espírito que animou as famosas Cortes de Lamego, que culminaram com o Grito de Almacave: Nos liberi sumus, Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt. Fomos e somos livres, mas falta-nos cumprir Portugal.

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por João Pinto Bastos às 15:35

Terça-feira, 01.10.13

Crónicas do planeta da bola (I) - a diplomacia católica de Romário

Se o Futbol Club Barcelona é "més que un club", o "Dream Team" de Cruyff será, seguramente, "més que un equipo". Nos idos da década de 90, a fabulosa equipa dirigida pelo mago holandês era o palco privilegiadíssimo do desenrolar ininterrupto das estórias mais saborosas do planeta futebolístico. Algumas delas tiveram como protagonista o baixinho Romário, um jogador que, para lá da sua imensa qualidade futebolística, não descurava uma certa excentricidade no modo como se movimentava nos bastidores do mundo da bola. Em 1993, o brasileiro era já tido por muitos como um dos melhores jogadores do mundo. O interesse do Barcelona surgiu, portanto, com toda a naturalidade,  sendo que, no Verão do dito ano, o Baixinho acabaria por transferir-se para a Ciudad Condal, numa movimentação que rendeu uns bons e belos cobres às arcas do PSV Eindhoven. Mas deixando de lado os contornos financeiros da aquisição do passe do brasileiro, houve alguns acontecimentos que, ainda hoje, passados 20 anos, são recordados com bastante humor pelo adepto culé. Um deles foi particularmente glosado na imprensa local, dando origem, na época, a caricaturas deveras hilariantes. Como podem ver pela foto acima postada, Romário teve, na sua estada em Barcelona, contactos ao mais alto nível com alguns prelados da Igreja Católica. A coisa dita assim deste modo soará, a alguns ouvidos, a uma brincadeira de Carnaval, e, no fundo, é compreensível que assim o seja. Mas, a verdade é que o craque brasileiro era diferente dos demais companheiros de profissão, o que explica, de certa maneira, a sua total despreocupação para com a normalidade protocolar então vigente. O contacto com os curas catalães tem uma explicação quase anedótica, que não evitará, decerto, umas boas gargalhadas aos excelentíssimos leitores. Sigam então o espoletar desta maravilhosa epifania futebolística. Após os contactos iniciais com o então vice-presidente Gaspart, nos quais foram acordadas as principais cláusulas do vínculo que ligaria o Baixinho ao Barça, Romário viajou para a Catalunha, em direcção a LLanaveres, para pernoitar na casa de Verão de Gaspart. Seria aí, nessa residência, que Romário e o mencionado vice-presidente assinariam o acordo final que ligaria o brasileiro ao FC Barcelona. No final dessas diligências, Romário deixaria toda a gente estupefacta, ao sugerir uma ida à missa para celebrar a assinatura do dito acordo. Como devem calcular, o staff do clube aceitou de bom grado a excêntrica proposta do geniozinho brasileiro, de modo que a paróquia de Sant Vicenç de Montalt (a mais próxima do local onde se encontravam) teve naquele dia um visitante muito especial. Foi aí que Romário travou conhecimento com o padre de Sant Vicenç, com o qual estabeleceu, aliás, uma relação de profunda amizade, que teria a posteriori consequências muito positivas para as finanças da paróquia. Foi Romário que, num dos seus habituais gestos de emprestador de último recurso, financiou algumas das obras de beneficência desenvolvidas pela comunidade católica do lugarejo. De facto, não é para todos. 

Mas as excentricidades de Romário, na sua chegada à capital da Catalunha, não ficariam por aqui. Pouco tempo depois, antes da sua apresentação oficial aos sócios, o Baixinho surpreenderia tudo e todos ao aparecer na Praça de Touros Monumental, para assistir a uma tourada de morte. Quando o público se apercebeu da sua presença, a lide foi interrompida para uma tremenda ovação, que durou vários minutos. Para um recém-chegado, não há dúvida de que a recepção em causa superou todas as expectativas, ainda para mais sabendo que o craque canarinho apreciava a festa culta por excelência. As anedotas de Romário continuariam por muito tempo, até porque a sua relação com Cruyff, cheia de estados de alma, foi uma verdadeira arca do tesouro, repleta de episódios dignos de um sketch dos Monty Python. Desde as promessas de golos com direito a mini-férias, até ao especialíssimo regime de treino que incluía o não comparecimento nas sessões estipuladas, os contos efabulados da estada de Romário no FC Barcelona dariam, certamente, para mais algumas postas. Por hoje basta a menção aos conciliábulos católico-taurinos de um jogador que nunca deixou de surpreender. Como dizia Valdano, Romário era um jogador de desenhos animados. Resta acrescentar que o foi dentro e fora das quatro linhas. 

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por João Pinto Bastos às 00:26


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