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O Filho de Eneias



Sábado, 21.09.13

O rapto de Helena

Luca Giordano, O rapto de Helena, 1680-1683

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por João Pinto Bastos às 18:11

Sábado, 21.09.13

Estórias czarianas

Uma das gaffes mais espirituosas de Pedro, o Grande, pela pena do duque de Saint-Simon (Mémoires du duc de Saint-Simon):

"O czar não estava irritado porque a Inglaterra não tinha mostrado muita pressa em mandar-lhe uma embaixada. Quando, finalmente, esta chegou, primeiro não lhe concedeu audiência, depois marcou-a, mas a bordo de um veleiro holandês que ele havia de visitar. Os embaixadores acharam extravagante a ideia, mas acomodaram-se a ela. Quando chegaram a bordo, foi-lhes dito que o czar estava na gávea e que os receberia lá em cima. Os embaixadores, que não se sentiam com alma de marinheiros, recusaram-se a enfrentar as longas escadinhas de corda; mas o czar insistia, e os embaixadores ficavam cada vez mais embaraçados com aquela bizarria tão discutível; até que, tornando-se o tom do czar cada vez mais brusco, não tiveram outro remédio senão subir. Na gávea - assim, sem mais nada e fustigados pelo vento - foram recebidos por um Pedro solene e majestoso, como se estivesse sobre um trono. Ouviu a sua arenga e respondeu convenientemente; mas, por fim, troçou do medo que via estampado naquelas faces vincadas, e deu a entender, rindo-se, que lhes tinha imposto as vertigens, como castigo por se terem apresentado tão tarde."

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por João Pinto Bastos às 14:54

Sábado, 21.09.13

Stenka Razin

Nunca fui, malgrado os meus ingentes esforços, um pianista talentoso. Falta de jeito, dirão alguns, e, com efeito, a minha destreza no tilintar das teclas nunca foi muito apurada. Mas, no fundo, o meu insucesso derivou, fundamentalmente, da minha falta de vocação para a coisa. O certo é que durante os anos em que pratiquei a minha inexistente habilidade sobre o piano, consegui, graças a Deus, afinar a minha sensibilidade musical. Data dessa altura o boníssimo contacto que tive com o grande compositor russo, Alexander Glazunov (1865-1936), infelizmente desconhecido do grande público. Para um neófito na arte musical, um contacto deste calibre teria, forçosamente, de deixar a sua marca. Recordo-me, em particular, do poema sinfónico, Stenka Razin, dedicado por Glazunov a Borodin. Ainda hoje, passados alguns anos, oiço com paixão esta brilhante composição. Num estilo muito próprio, um tanto ou quanto reminiscente do melhor TchaikovsKy, Glazunov reconstrói a epopeia cossaca de Razin, fixando-a, sobretudo, no momento em que o herói cossaco sacrifica a sua amada princesa persa, afogando-a, sendo, posteriormente, capturado pelos soldados czaristas. A mestria com que Glazunov aborda esta sequência é particularmente tocante. Sente-se uma leveza quase transcendente no modo como o ritmo da composição flui. Uma magnificência sumamente romântica, como foi, de resto, apanágio de Glazunov em quase todas as obras que compôs. A história de Stenka Razin tem, aliás, uma imponente aura romântica, que não se circunscreve, apenas, ao sacrifício isaaquiano retratado no tema acima postado. É, ademais, importante notar que as excentricidades de Razin não se limitaram à mancebia com a desafortunada princesa persa. Para termos uma simples ideia da qualidade do personagem em análise, basta saber que no auge de uma das revoltas que diligentemente chefiou, Razin, vindo de Astracã, atreveu-se a subir o Volga com duas luxuosas embarcações, afirmando ter no seu interior o Patriarca Nikon e o czarevitch. Uma mise-en-scène perfeita. O fim de Razin não foi, contudo, nada abonatório, se pensarmos, por exemplo, nos extravagantes talentos que caracterizaram, desde sempre, o poderoso chefão. No dia 4 de Junho de 1670, o memorável patrão dos cossacos seria brutalmente executado, com direito a uma meticulosa amputação de pernas, braços e cabeça. Um castigo à russa. Alguns anos mais tarde, Mazeppa, cossaco imortalizado pela pena de Byron, escaparia, por pouco, a um destino similar. A Grande Rússia é prenhe em estórias deste jaez. Sem ir muito longe, se olharmos para a figura de Pedro, O Grande, verificaremos, com uma simpleza desarmante, que a excentricidade polida faz inegavelmente parte do código genético russo. Glazunov crismou, como poucos, essa feição tipicamente russa, retratanto magistralmente, na sua toada romântica, os caracteres mais salientes de um povo fechado mas inclitamente caridoso. Foi, também, com ele que aprendi que a música é, em muitas circunstâncias, uma das artes mais sublimadoras da grandeza e da tragicidade do homem. Para um desconhecido do grande público, hão-de convir que o resultado não é de todo esquecível.

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por João Pinto Bastos às 01:02


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